terça-feira, 6 de outubro de 2009

Salve Geral


Esse não se salva

O enorme sucesso de crítica e público alcançado por “Cidade de Deus” gerou uma sucessão de filmes voltados a mostrar às plateias o mundo cão da criminalidade brasileira, todos com um viés de “análise sociológica” destinada a fazer a o espectador refletir sobre a realidade nacional. Na realidade, só tivemos dois filmes que, de fato, alcançaram de forma satisfatória este intuito, quais sejam, o próprio “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, e “Tropa de Elite”, de José Padilha (isso no terreno ficcional, pois o documentário “Ônibus 174”, também de Padilha, é simplesmente excelente). Entretanto, a maior parte dos exemplares navega em mares de mediocridade, casos de “Carandiru” e “Última Parada 174”, este último o longa brasileiro escolhido pela comissão do Ministério da Cultura em 2008 para concorrer a uma das indicações ao Oscar de melhor filme estrangeiro, passando longe dessa pretensão, todavia.

Agora, eis que o Ministério indica este “Salve Geral”, filme de Sérgio Rezende que trata dos ataques realizados pelo Primeiro Comando da Capital – PCC a várias delegacias, bancos, lojas e ônibus no dia das mães do ano de 2006, como uma forma de reação às medidas mais duras que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo estava tomando com relação às lideranças criminosas e presos de maior periculosidade. Obviamente, como já se tornou praxe no gênero, são apresentados personagens e circunstâncias ficcionais com uma forma de estabelecer um link maior com o público, procurando envolvê-lo na trama. No presente caso, a personagem que tem essa função primordial é a de Lúcia (Andréa Beltrão), uma professora de piano diante de sérias dificuldades financeiras após a morte do marido, as quais a levam a mudar-se de bairro (para outro bem menos nobre), acompanhada do filho Rafael (Lee Thalor), ainda bastante jovem. O rapaz é um tanto irresponsável e se envolve em um crime durante um racha, fato que o leva a ser condenado a 8 anos de prisão. Diante desta nova dificuldade, Lúcia, buscando ao máximo tirar o filho da prisão, acaba conhecendo “A Ruiva” (Denise Weinberg, a melhor do elenco), uma advogada de porta de cadeia que faz o típico trabalho sujo para os detentos, servindo como elo entre estes e o mundo exterior. A advogada é responsável pela frase que se torna meio que um mote do filme: “um péssimo juiz pode ser mais eficiente que um bom advogado”.

À parte alguns furos jurídicos, este início do longa até que transcorre de forma satisfatória. O trabalho do elenco é competente, gerando empatia. O roteiro (do próprio Rezende em parceria com Patrícia Andrade) transcorre com fluidez e bons diálogos, e o diretor se preocupa, através de pequenos detalhes, em nos mostrar características interessantes dos personagens (com as várias fotos de Ayrton Senna no quarto de Rafael que denotam sua paixão pelo automobilismo). Os aspectos sociais também nos são mostrados sem cair no didatismo. Entretanto, a partir do momento em que Lúcia passa a fazer serviços para a Ruiva, levando e trazendo informações aos presídios, a coisa começa a desandar e descamba totalmente quando ela se envolve com um dos líderes do “Partido”, um tal “Professor” (Bruno Perillo), que o filme se esforça para mostrar como homem bonito e inteligente, meio que para justificar a atitude da protagonista. Por sinal, o caso entre os dois tem início de uma hora pra outra com uma cena de sexo totalmente anticlimática, meio sem pé nem cabeça, salvando-se apenas pela sensualidade que Andréa Beltrão consegue conferir à sua performance.

Nesse ponto, o filme investe em aspectos que lembram dramalhões televisivos. Toda a trama “social” adentra em um didatismo superficial, como se não tivéssemos conhecimento dos vários meandros e esquemas levados a efeito pelas facções criminosas, além das situações vividas internamente nos presídios por detentos, os quais têm que se submeter aos caprichos dos líderes de tais facções. Nada que já não tivesse sido visto em filmes-presídio como o citado “Carandiru”, por exemplo. O pior de tudo é que as intenções de Rezende parecem ser as de realizar uma grande análise das origens e manutenção do ciclo da violência no Brasil, no que fracassa totalmente. Suas ambições naufragam num roteiro que, além dos aspectos novelísticos, parece também querer investir em tramas de ação (SPOILER: a perseguição da polícia a Rafael, já quase ao fim da projeção, é exemplo claro disso FIM DE SPOILER). A própria trilha sonora traz essa marca: há vários temas muito mais adequados a sequências de ação ou suspense do que a uma proposta de reflexão sobre o que está sendo mostrado na tela. Corolário de tudo isso é o desfecho do personagem da Ruiva, patético e maniqueísta.

Trata-se aqui de mais um caso de equívoco na escolha de nosso concorrente à estatueta do careca dourado. Mais uma obra medíocre que passará longe dos 5 finalistas. E aí vem sempre a mesma pergunta: foi isso que o Brasil conseguiu produzir de melhor no corrente ano? O país já conseguiu até ser sede de Olimpíada (Rio 2016, lá vou eu!), mas parece que ainda não entendeu como realizar filmes de boa qualidade, sobrevivendo apenas de momentos criativos de diretores diferenciados como Meirelles, Walter Salles e José Padilha. Ainda muito pouco, infelizmente.


Cotação: * * ½ (duas estrelas e meia)
Nota: 6,0
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