domingo, 31 de outubro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer




Hiroshima, Meu Amor
(Hiroshima, Mon Amour)



Nós somos nossa memória



É difícil escrever sobre um filme como “Hiroshima, Meu Amor”, não só pela sua complexidade, mas também pela enormidade de textos já escritos sobre o mesmo. O filme de Alain Resnais, que pegou carona na Nouvelle Vague (muito embora o próprio Resnais não fizesse exatamente parte do movimento), é um dos mais debatidos de toda a história do cinema, muito devido ao potencial inovador que trouxe para a sétima arte. O longa é uma mistura de drama e documentário e sua primeira parte, sé é que podemos dizer assim, é uma das mais famosas e impactantes já vistas.

Resnais era documentarista antes deste trabalho, sendo famoso o seu “Noite e Neblina” (de 1955), sobre os campos de concentração nazistas, e havia começado “Hiroshima” não como uma ficção, mas como documentário. É daí que surgiram as imagens inesquecíveis de Hiroshima destruída, dos corpos carbonizados, dos sobreviventes miseráveis, do bebê ferido e em prantos, do memorial da bomba na cidade, cenas estas sublinhadas pela memorável frase “você não viu nada em Hiroshima”, pronunciada pelo ator japonês Eiji Okada, talvez querendo dizer que o pior ainda estaria por vir (Curiosidade: Okada não falava francês e teve que aprender o texto foneticamente). Em contraponto a esta fala, lançam-se as frases ditas pela personagem da atriz francesa Emmanuelle Riva, afirmando que “viu tudo em Hiroshima”. Esta rica contraposição foi levada a cabo pelo belo texto de Marguerite Duras, escritora francesa que faria aqui sua primeira incursão no cinema (ela posteriormente também se tornaria diretora), elaborando um roteiro baseado em experiências pessoais que já haviam sido tema de livros de sua autoria.

Este aspecto literário do longa é ainda mais realçado em sua “segunda parte”. Os personagens de Riva e Okada são amantes que se encontram em Hiroshima. Ele é um arquiteto; ela, uma atriz que está na cidade para realização de filmagens. Aos poucos, ela vai revelando fatos marcantes do seu passado na França, mais precisamente em Nevers, cidade da Bretanha ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Aos poucos, vamos descobrindo que a mesma teve um romance com um soldado alemão, o qual acaba sendo morto no dia em que iriam fugir para viverem livremente seu amor. A família descobre a relação e a jovem sofre duríssimas consequências. Este passado da atriz em Nevers é mostrado através da reconstrução de memórias. Não sabemos como de fato os eventos aconteceram, mas somente como eles se processaram na memória da narradora. A memória, frise-se, é fugidia, escorregadia, pregando-nos peças e recriando os fatos de uma forma que, em muitas ocasiões, pode ser a mais confortável para a nossa consciência. E assim, a atriz vai narrando ao arquiteto (os personagens não possuem nomes), de maneira similar a uma sessão psicanalítica, as suas vicissitudes em Nevers, dando-nos uma visão da formação de sua personalidade, das motivações do seu comportamento. A memória, parece dizer Resnais, é a principal responsável por sermos o que somos.


Essa perspectiva pessoal também dialoga diretamente com o coletivo. Se a humanidade, como um todo, possui em sua História a memória dos fatos que delimitaram seus rumos, cada ser humano possui em si também eventos que marcaram/marcarão para sempre o seu destino. A Nevers da protagonista funciona para ela como Hiroshima funciona para o povo japonês, ou seja, um marco divisor que influencia seu comportamento mesmo após muitos anos dos eventos ocorridos. Cada ser humano possui uma Hiroshima que, no caso da personagem, é sua Nevers, como fica bem delimitado na “terceira parte” longa.

Vale salientar que, para uma narrativa calcada em memórias, a estrutura usada por Resnais foi necessariamente inovadora para o seu tempo. As palavras em off, no mencionado início, a sobreposição às imagens da guerra, o uso de flashbacks constantes, levando a uma projeção não linear, causaram um grande impacto na época, impacto hoje bastante diluído devido ao uso constante dos artifícios usados pelo diretor, os quais se tornaram comuns até mesmo na televisão. Resnais, ademais, radicalizaria esta proposta no seu filme seguinte, “O Ano Passado em Marienbad”, tornando-se quase inacessível ao grande público tal a dificuldade existente em sua compreensão.

Essa forma difícil, bem como a banalização de suas inovações, faz com que boa parte do público das novas gerações possua um certo desdém para com a obra do diretor francês. Uma pena. Resnais é um dos cineastas responsáveis pelo cinema tal como o vemos hoje. E “Hiroshima, Meu Amor”, sem dúvida, é uma obra seminal que ajudou a elevar a arte cinematográfica. Bem, no fim das contas, creio que não fui original, mas acabei escrevendo um texto sobre este grande filme! ;=)


Cotação e Nota: Obra-prima

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4 comentários:

alan raspante. disse...

Ual, eu realmente preciso conferir este filme!
ótima crítica!!

Fábio Henrique Carmo disse...

Alan, este é um filme essencial!

renatocinema disse...

Estou com essa pendência desde jovem. Preciso ver esse filme urgente.

Fábio Henrique Carmo disse...

Renato, recomendo resolver logo essa "pendência"! Ah e obrigado por seguir o blog. Vou já dar uma passada já no seu! Abraço!