sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi

Como fazer um filme de arte para as massas


Ante de tudo, vamos abrir parênteses para um assunto tangente ao filme do qual trataremos nas linhas abaixo. Eu tenho um ranço com relação à obra literária “A Vida de Pi” (Life of Pi), do canadense Yann Martel, vencedora do Booker Prize anos atrás. Martel plagiou uma ideia concebida pelo escritor brasileiro Moacyr Scliar na sua novela “Max e os Felinos”, onde narrou a estória de uma náufrago que sobrevivia em um bote juntamente com um jaguar. Desde que o livro de Martel venceu o prêmio, a hipótese de plágio foi levantada, gerando um enorme constrangimento. Cavalheiro, Scliar refutou a insinuação de plágio e Martel acabou por dizer que a “centelha” para o seu livro surgiu a partir de uma resenha negativa sobre “Max e os Felinos”, afirmando que ideia havia sido mal aproveitada. O canadense, inclusive, passou a incluir nas edições posteriores um agradecimento a Scliar pela “faísca” que lhe foi dada. Recentemente, vi uma matéria de um jornalista brasileiro afirmando que o livro de Martel realmente seria melhor e que põe em relevo a tal ideia negligenciada por Scliar, que tratava na sua obra, metaforicamente, apenas de uma história de imigração que seria a da sua própria família. Bem, eu li o livro de Scliar e posso dizer que a afirmação me pareceu - e vou ser sincero – ou simplória ou estúpida. Nenhum autor é obrigado a atender às expectativas de ninguém, criando tramas que não aquelas que deseja contar. Scliar colocou no livro um tema caro às suas origens e não tinha nenhuma obrigação de tratar de Deus, fé ou qualquer outro tema similar, como o fez Martel. Agora, tomar a ideia de um outro escritor e colocar como sua, assim, como quem não quer nada, é que fica, no mínimo, feio.

Dito isto, cabe dizer também que Ang Lee, um dos grandes e mais versáteis diretores do cinema contemporâneo, não tem nada a ver com a celeuma e em “As Aventuras de Pi” entrega um dos seus melhores trabalhos, o que não é pouco se recordarmos o seu retrospecto de excelência. Baseado no livro do referido Martel, ele nos leva a uma jornada lindamente filmada que encanta não apenas por seu visual, mas também pela sua enorme capacidade de unir o artístico ao comercial, algo que, convenhamos, está longe de ser fácil. Impressiona a maneira como o diretor, mesmo tendo boa parte da sua narrativa presa a um bote com um rapaz, um tigre de Bengala, uma zebra, um orangotango e uma hiena, consegue estabelecer ritmo, tensão e interesse, por mais que a situação apresentada pudesse nos levar a um possível tédio ou repetição. Diversamente, “As Aventuras de Pi” jamais se mostra cansativo, alcançando a reflexão e passando longe do hermetismo ou algo que se poderia definir como “filme de crítico”.

Na trama, adaptada com roteiro de David Magee, somos apresentados ao protagonista Piscine Molitor Patel desde a sua infância na Índia. Vemos explicado o seu nome, uma homenagem do seu pai a uma piscina de Paris e o porquê do garoto adotar o número irracional “pi” como alcunha. Sua família é dona de um zoológico, fazendo com que Pi conviva desde a mais tenra infância com diversas espécies de animais. Entre eles está o tigre Richard Parker, que passa a conviver com o protagonista, já adolescente, em um bote depois que o navio onde viajava com sua família para o Canadá naufraga. Mais do que os mencionados orangotango, hiena e zebra, é Richard Parker que irá se tornar o foco das atenções de Pi. Cumpre ressaltar que Piscine é uma rapaz religioso, ou melhor, triplamente religioso. Sua crença é pra lá de ecumênica e ele se diz ao mesmo tempo hindu, católico e muçulmano, pois afirma encontrar nas três religiões elementos que o aproximam de Deus. Sua jornada em alto mar será pautada, desta forma, pelas suas crenças e nelas ele encontrará alívio e força para enfrentar o seu desafio. Ademais, a jornada lhe trará algumas respostas, respostas estas que não conseguia encontrar anteriormente.

Desta forma, a vivência de Pi nos mares mostra-se como uma grande metáfora repleta de analogias religiosas. O tigre Richard Parker aparece, em uma visão cristã, como uma representação de nós, seres humanos, inconstantes na nossa fé e ingratos com o que nos foi dado. Piscine surge, então, como a figura do próprio Cristo, que despendeu inúmeros esforços por aqueles que amava (os seres humanos), os quais, no entanto, deram-lhe as costas. Sob tal ótica, Ang Lee, com a sensibilidade que é, talvez, sua grande marca cinematográfica, permeia vários momentos da projeção com referências bíblicas. É possível identificar passagens como a do milagre dos peixes, morte e ressurreição, além do Livro de Jó, quando Pi pergunta a Deus o que ele quer, já que havia perdido tudo o que tinha e passado por demasiado sofrimento. Acredito, inclusive, que existam referências não só ao Cristianismo, mas também às outras duas religiões de Pi, Hinduísmo e Islamismo, mas esta apreciação me restou prejudicada devido ao pouco conhecimento que possuo de tais crenças.


A busca existencial, por outro lado, é destacada por uma experiência imagética ímpar, como já frisado mais acima. A fotografia, de Claudio Miranda, é simplesmente espetacular, oferecendo uma paleta de cores vivas que realçam ao mesmo tempo a beleza, a força e a indiferença da natureza diante dos homens. O aspecto fotográfico ainda é complementado por efeitos visuais soberbos. É quase inacreditável que o tigre visto na tela seja, em quase todas as cenas, moldado em computadores, um verdadeiro triunfo digital. Tais aspectos técnicos, contudo, não existem sem finalidade, servindo à narrativa como uma forma de enriquecê-la e tentar trazer para o espectador a sensação de também estar à deriva no oceano, em contato com as forças mais selvagens e, ao mesmo tempo, estar mais próximo de Deus. Cabe destaque, ainda, para Suraj Sharma, intérprete do jovem Pi, ótimo em todas as cenas e melhor do que Irfran Khan, que representa o personagem na fase adulta.

Indicado a 11 estatuetas da Academia, “Life Of Pi” se coloca como uma experiência única dentro do que podemos denominar cinema “comercial”, um filme “de arte” para as massas que nos traz o desejo imediato de vê-lo novamente e que gera aquele gostoso debate sobre seu conteúdo após o término da sessão. Ang Lee, mais uma vez, dá uma aula de como construir uma filme reflexivo, filosófico e autoral sem ser pretensioso ou resvalar no hermetismo soberbo, algo que costuma afastar, por vezes, até mesmo o público cinéfilo de algumas produções. Seria ótimo que seu exemplo fosse seguido, mas, sabem como é, não são todos que possuem tanto talento.


Cotação:
 


Nota: 10,0
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3 comentários:

renatocinema disse...

Cara.....quantos elogios. Nota 10.

Estou ansioso para ver. Mas, não estou achando brecha e dinheiro. kkk

Mas, quero muuuuuuito ver.


abraços.

Celo Silva disse...

Ainda não tive chance de ver esse filme. Ele anda dividindo opiniões, mas te agradou bastante. Isso é um bom presságio quanto a minha sessão vindoura dele. Confio demais na tua opinião. Abração!

Renê Rocha Lopes disse...

Eu assisti o filme e a principio achei que não fosse atender as minhas expetativas, pois ouve um começo um pouco parado, mas depois que a história foi se desenvolvendo me interessei cada vez mais.No final do filme então fiquei bem intrigante devido a metáfora que PI havia deixado entender.

O filme realmente foi sensacional.