domingo, 6 de janeiro de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Um Corpo Que Cai
(Vertigo, 1958)


Amor Obsessivo


Não é fácil escrever sobre um filme como “Um Corpo Que Cai” (Vertigo, 1958), uma das obras máximas de Alfred Hitchcock, para muitos o seu melhor filme. É o tipo de película sobre qual muito já se falou, escreveu, revirou-se, homenageou-se etc. etc. etc. Mas também é irresistível vê-lo mais uma vez e não tecer alguns comentários, por mais pobres ou redundantes que sejam, sobre o prazer de ver um filme tão genialmente importante.

Como muitos devem saber, Hitchcock foi um dos precursores no que hoje conhecemos como “cinema autoral”, idolatrado pela turma da Nouvelle Vague (François Truffaut era seu fã confesso) e hoje reverenciado como “mestre do suspense”. Entretanto, para além do gênero, Hitchcock foi um mestre na arte de filma, capaz de engendrar tramas com variadas paletas sob uma superfície de thriller. “Um Corpo Que Cai” constitui-se em um dos exemplos mais claros desta afirmação, uma vez que, por trás de uma trama de mistério com nuances policialescas e até mesmo “espíritas”, o que vemos é a história de um amor obsessivo que na verdade se coloca como uma metáfora para a relação homem-mulher onde, infelizmente com frequência, um procura transformar o outro para que atenda às suas idealizações. Baseado no livro “D'Entre Le Morts”, de Pierre Boileau e Thomas Narcejac (os mesmo autores de “As Diabólicas”), trata-se de um romance-drama impressionante que discute a natureza da personalidade humana e que aponta a crueldade das relações amorosas.



Nela, vemos James Stewart, em seu quarto e último filme com o diretor (Hitchcock aparentemente aceitou os comentários dos críticos de então, que afirmavam que Stewart estava velho para o papel), interpretar o policial de São Francisco John “Scottie” Ferguson, afastado de sua função por ter, indiretamente, causado a morte de um colega devido à sua acrofobia (medo de altura - daí o título original que significa “vertigem” em português). Trabalhando como detetive particular, Ferguson é contratado por um antigo amigo, Gavin Elster (Tom Helmore), para investigar sua esposa, Madeleine (Kim Novak, talvez no papel mais lembrado de sua carreira), a qual anda obcecada com a ideia de que é a reencarnação de uma antepassada, Carlota Valdes, que suicidou-se pulando na baía de São Francisco. Ferguson acaba se apaixonando pela mulher, que por sua vez repete a história de suicídio ao se atirar de um campanário. Tempos depois, acaba conhecendo uma mulher que lembra muito a falecida, Judy Barton (novamente Kim Novak), nutrindo agora o desejo perturbador de transformá-la em uma espécie de nova Madeleine.

Essa relação perturbada é exatamente o foco de Hitchcock, tal como em “Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954), ocasião em que ele usou uma trama de assassinato para apresentar uma alegoria sobre o jogo do casamento, onde Grace Kelly tentava mostrar a um fotógrafo solteirão (o mesmo Stewart) que ela era a mulher ideal para ele se casar. Em “Vertigo”, entretanto, o jogo não é de sedução. Tal etapa já não é mais importante para Hitchcock. Aqui, ele volta os olhos para a dominação existente entre os parceiros, ideia cristalizada na cena em que Judy Barton cede aos apelos de Scottie a aparece finalmente transmudada em Madeleine, uma cena de tamanha força emocional que muitos à comparam ao assassinato de Marion Crane em “Psicose” (Psycho, 1960), o que não é nada absurdo. Afinal, Judy Barton anula sua própria personalidade para que seja aceita pelo homem que ama, o que não deixa de ser a representação de uma morte em vida, morte entendida como destruição da própria persona. Ademais, o velho Hitch parece colocar a vertigem de altura do protagonista como uma representação do medo de se envolver em um relacionamento. Assim, a tentativa frustrada de subir as escadas do campanário para tentar impedir a morte de Madeleine revela, em uma análise mais apurada, a dificuldade que Ferguson tinha de assumir estar apaixonado por ela.


Para nos mostrar tal narrativa, o diretor se valeu do seu conhecido virtuosismo técnico, o qual pode ser observado desde os créditos iniciais concebidos pelo mestre Saul Bass, que já induzem o espectador a uma sensação semelhante à vertigem, algo explorado também ao longo da projeção através de novos e inventivos recursos, como o “zoom in e zoom out” ou “contra-zoom”, uma invenção do cameraman Irmin Roberts (a quem não foram dados os devidos créditos posteriormente). Acompanhando as imagens (este é um dos filmes mais imagéticos do diretor) e ditando o ritmo e o tom da ação, temos a trilha sonora experimental, mas também genial, de Bernard Herrmann, escandalosamente não premiada com um Oscar, o que hoje soa totalmente irônico, já que a Academia recentemente premiou a trilha de “O Artista” (The Artist, 2011) que usou temas deste trabalho de Herrmann com a desculpa de “homenagem”. Até mesmo o figurino de Novak, concebido por Edith Head, contribui para sua aparência um tanto fantasmagórica e auxilia no clima sombrio da película. Novak, apesar do seu bom desempenho, principalmente como Judy Barton, não teve boas relações com Hitch, talvez porque este tivesse pensado primeiramente em Vera Miles (de “Psicose”) para o papel, mas foi possível devido à gravidez da atriz. Dizem as más línguas que ele nutria uma especial crueldade com Novak, chegando a obrigá-la a pular diversas vezes na água durante as filmagens da sequência em que Madeleine se atira na baía de São Francisco. Já Jimy Stewart, um dos mais carismáticos atores da história do cinema, mais uma vez cativa o público e convence perfeitamente como o detetive obsessivo e perturbado.

Em recente eleição realizada por uma publicação britânica entre críticos e diretores, “Um Corpo que Cai” foi considerado o melhor filme de todos os tempos, deixando para trás “Cidadão Kane” (Citzen Kane, 1941), o filme de Orson Welles que rotineiramente ocupava o primeiro posto nas listas. Provavelmente, o resultado se mostra como consequência da enorme influência que Alfred Hitchcock exerce sobre os cineastas contemporâneos (Brian De Palma, por exemplo, teve inspiração direta nele para realizar “Dublê de Corpo”) e também porque o filme passou anos fora de circulação, uma vez que seus direitos estavam na mão de Hitch e ele o deixou trancado no armário durante mais de duas décadas ( e sabemos que críticos adoram filmes pouco vistos). Pessoalmente, gosto mais dele do que do longa-metragem de Welles, muito embora não se possa negar que este possua mais inovações narrativas. Entretanto, mesmo com o seu desfecho para muitos insatisfatório – [SPOILER] o “ vilão”, se assim podemos definir, sai impune no final [FIM DE SPOILER] – o que gerou críticas na época do seu lançamento (com as quais não concordo) – este longa-metragem é mesmo um dos melhores exemplos da arte de um gênio que foi um dos responsáveis por definir o cinema como o entendemos e apreciamos hoje. Uma obra poderosamente imagética e perturbadora que lhe trará um provável desejo de retorno.


Cotação e nota: Obra-prima.
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7 comentários:

renatocinema disse...

Se a sessão é ver antes de morrer.....não posso morrer. Ainda não vi. Sacrilégio.

Jorge Teixeira disse...

Sem dúvida, um filme magnífico, que tem tanto para analisar e escrever que se torna ele próprio uma autêntica vertigem de raciocínios e reflexões constantes. Adoro-o, sendo que o vi recentemente em sala outra vez, aqui por terras portuguesas, e constatei, mais uma vez, a tremenda genialidade do Mestre atrás das Câmaras...planos tão bons e tão minuciosos, uma delícia.

A propósito, bom texto.

Cumprimentos,
Jorge Teixeira
Caminho Largo

Hugo disse...

Um dos melhores de Hitch. As cenas de vertigem do personagem de James Stewart são sensacionais e ainda tem Kim Novak no auge da beleza.

Abraço

Celo Silva disse...

"Entretanto, para além do gênero, Hitchcock foi um mestre na arte de filma, capaz de engendrar tramas com variadas paletas sob uma superfície de thriller."

Concordo em número e gênero. Meu Hitch favorito, com um dos melhores finais da história do cinema. Parabéns pelo texto, vc se preocupou no começo, mas ficou muito relevante.

Abração!

Robson Saldanha disse...

Vergonha sem tamanho não ter visto UM FILME SEQUER de Hitchcock. Preciso consertar isso!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Fabuloso momento do mestre. Até Kim Novak tá bem.
Feliz 2013, Fábio. E viva o cinema!

O Falcão Maltês

railer disse...

esse filme é mesmo show!