quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Restaurando a Película

Gente Como a Gente
(Ordinary People, 1980)


A família que derrubou um touro


Eu faço parte da legião de revoltados com o fato de “Touro Indomável” (Ragging Bull, 1980), filme que considero a grande obra-prima de Martin Scorsese, não ter recebido os prêmios de melhor filme e direção da Academia de Hollywood. Acredito que seja uma injustiça ainda maior do que a derrota de “Taxi Driver” (1976) para “Rocky – Um Lutador” (Rocky, 1976), uma vez que, apesar da importância do longa de Scorsese, eu não o tenho como seu melhor filme e, convenhamos, a saga do lutador criada por Sylvester Stallone é muito cativante. Sendo assim, sempre antipatizei previamente com o responsável pela derrota de “Touro Indomável” no Oscar, um drama intitulado “Gente Como a Gente” (“que título cafona!”), o qual veio a ser a estreia do astro Robert Redford na direção. Entretanto, neste último sábado resolvi dar uma chance para o filme de Redford. Afinal, muito consideram injustiça a derrota de “Cidadão Kane” (Citzen Kane, 1941) para “Como Era Verde Meu Vale” (How Green Was My Valley, 1941), mas, sinceramente, o filme de John Ford me agrada mais do que a seminal obra de Orson Welles. Bem, a verdade é que, para um diretor estreante, “Ordinary People” se revela um grande trabalho. Impressionam a segurança de Redford, bem como a sua direção de atores, os quais entregam ótimas performances, principalmente o também estreante na tela grande Timothy Hutton (ele tinha feito apenas filmes para TV), um rapaz excepcional que me fez perguntar por onde ele anda e que se tornou o mais jovem ator a ganhar um Oscar (como coadjuvante).

Trata-se da adaptação de um livro de Judith Guest, um ótimo trabalho do roteirista Alvin Sargent, que também levou o Oscar por seu esforço. Surpreende, inclusive, que o longa tenha alcançado um grande êxito nas bilheterias, tendo em vista o público norte-americano costuma privilegiar produções escapistas e esta vai justamente no sentido oposto. É uma história de desagregação familiar ocorrida após uma tragédia, a morte do milho mais velho por afogamento em um acidente de barco. O mais novo, Conrad (papel de Hutton), carrega a culpa por se considerar culpado pelo ocorrido, chegando a tentar o suicídio. A mãe (interpretada com brilho por Mary Tyler Moore), por sua vez, procura manter sempre as aparências de controle e estabilidade familiar, por mais que as evidências demonstrem o contrário. O pai, vivido por Donald Sutherland (pai de Kiefer), demonstra maior preocupação com o filho em crise e o aconselha a procurar o psicanalista Tyrone Berger (Judd Hirsch, também indicado ao Oscard de coadjuvante), o qual, com seus métodos abertos e francos, ajuda Conrad a recuperar sua autoestima.



A trama se desenvolve sem pressa e, aos poucos, vamos conhecendo as nuances da tragédia que marcou os Jarret e também as características de suas respectivas personalidades. Observamos, por exemplo, que a obsessão por controle da mãe Beth é perceptível até no seus afazeres domésticos, demonstrando uma mania de organização e cuidado com detalhes mínimos, como a disposição dos talheres na mesa onde irão jantar apenas pais e filho. Da mesma forma, percebemos que o falecido irmão Buck era o “popular” da escola e, possivelmente, o filho preferido de sua mãe. O pai, Calvin, é uma pessoa afável e cuidadosa, mas sucumbe diante do comportamento autoritário da esposa. E Conrad se vê perdido em meio à turbulência, tendo enormes dificuldades de estabelecer contato com a mãe e não obtendo na figura paterna a força de que necessita para superar o passado. O longa é um prato cheio para psicólogos e afins, dada a riqueza com que são evidenciadas as personalidades em cena.



Por outro lado, “Ordinay People” por vezes passa aquela sensação incômoda de estarmos assistindo a uma espécie de teatro filmado. É o tipo de película em que os diálogos se sobrepõem em demasia ao lado imagético, algo que, em geral, acaba por empobrecer um filme. Cinema é imagem e, ao compararmos com o preterido “Touro Indomável”, o contraste se faz gritante. A mão de Redford também erra ao imergir demais em psicologismos. Uma parcela significativa da projeção se passa no consultório do Dr. Berger, onde Conrad realiza suas digressões. De qualquer forma, nada que chegue a transmitir a sensação de tédio ou cansaço, principalmente diante da excelência das atuações. Mary Tyler Moore está perfeita em uma personagem que desperta antipatia desde as primeiras sequências, mas que ao mesmo tempo soa perfeitamente humana, sem maniqueísmos (também foi indicada ao Oscar de melhor atriz, perdendo para Sissy Spacek por “O Destino Mudou Sua Vida”). Sutherland também entrega boa atuação (principalmente na marcante sequência final), assim como Judd Hirsch na pele do Dr. Berger, mas é Hutton quem, de fato, rouba todas a cenas, em uma atuação bastante emotiva. Como disse acima, fiquei curioso para saber o seu destino como ator e, buscando no Google, descobri que ele fez muitos filmes depois deste, mas nunca obtendo o mesmo sucesso (participou, por exemplo, de “O Escritor Fantasma”, de Polanski). Uma pena que sua carreira não tenha decolado.

Não se pode negar que “Gente Como A Gente” não chega a ser uma obra-prima como o longa de Scorsese que derrubou na festa do Oscar. Mas vale ressaltar, inclusive, que ele é um filme mais afeito aos padrões da Academia do que aquele protagonizado por Robert De Niro. De toda forma, perdi um pouco da minha antiga aversão, uma vez que está longe de ser uma obra irrelevante. Pelo contrário, trata-se de um drama muito bem construído por Robert Redford, com personagens que, realmente, são pessoas comuns, como diz o título, vivenciando dificuldades que podem suceder na vida de qualquer um. Uma obra cheia de sensibilidade - com um inteligente final em aberto - que merece ser rememorada, mesmo que você seja um dos admiradores de Martin Scorsese. Aconselho a assistir desarmado(a).


Cotação:



Nota: 9,0
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2 comentários:

Celo Silva disse...

Rapaz, me falam muito bem desse filme, mas ainda não vi. Seu texto reforçou a vontade que tenho de conhece-lo.

Abração!

Suzane Weck disse...

Ola Fábio,sabes que até hoje ainda não sei o quanto ou não,gostei deste filme.Talvez lendo este teu excelente texto consiga me decidir.Meu abraço.SU